O LÍDER CRISTÃO: servo de Cristo ou funcionário da Igreja?

07/03/2011 19:04

O LÍDER CRISTÃO: servo de Cristo ou funcionário da Igreja?

Dom José Faustino Filho (Bispo Auxiliar), à esquerda
  Dom Leolino Gomes Neto (Arcebispo Primaz), à direita
 
The Christian Leader: Servant of Christ or official of the church?
 
No livro “O Monge e o Executivo”, de John Daily, o autor nos conta a história de um homem que busca rever o seu caminho, uma vez que sua história de chefe, marido e pai estava em crise. Como pano de fundo, esse autor desenvolve a seguinte mensagem: a base da liderança não está no poder, mas numa autoridade exercida com amor, dedicação e, principalmente, sacrifício. Devemos conquistar as pessoas por inteiro, inspirá-las a agir. Além disso, o respeito, o cuidado, a atenção para com as pessoas são atitudes indispensáveis na vida de um grande líder. Liderar, nesse caso, está relacionado a servir. Em outras palavras, quem não está disposto a servir, jamais poderá ser um grande líder, talvez não passará de um funcionário da Igreja.
 
A nosso ver, essa mensagem não é nova. A bíblia já nos ensina a esse respeito: “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Quando você busca desenvolver sua missão com autoridade e não poder (autoritarismo) as pessoas fazem, voluntariamente, a sua vontade por causa da influência que você exerceu sobre elas porque liderança é, sobretudo, influência. O papel do líder é ajudar os seus liderados (pessoas da sua equipe/grupo/Igreja) a ser melhor que elas podem ser.

O ritual da Eucaristia nunca deve estar separado dos gestos concretos do lava-pés. Na cultura japonesa, é costume o visitante tirar o calçado para entrar numa casa. No cristianismo, lavar os pés foi reinterpretado, significando atitude de serviço, isto é, gesto de hospitalidade para com quem chega. O evangelho nos ensina que, embora sejamos líderes, devemos lavar os pés uns dos outros. Esse gesto revela-nos concretamente humildade. Humilhar-se, nesse caso, torna-se atitude de pessoas inteligentes porque quando nos fazemos pequenos, reconhecendo nossas fraquezas e limitações humanas, deixamos Deus se revelar em nós. Não podemos agir como Judas. Ser fiel ao seu líder é ser fiel ao evangelho e, consequentemente, ser fiel a Cristo.

Jesus, sendo Mestre e Senhor, lava os pés dos seus discípulos. Esse ensinamento prático marcou profundamente a vida daqueles discípulos, principalmente a vida de Pedro que, a princípio, resistiu porque não havia entendido o significado daquele gesto, não permitindo que Jesus lavasse-lhe os pés. Lavar os pés uns dos outros significa que não devemos ser arrogantes, auto-suficientes, soberbos, orgulhosos, mas que dependemos uns dos outros. A nossa Missão Evangelizadora só marcará verdadeiramente presença no Brasil quando vivenciarmos, em conjunto, a graça do amor e da partilha numa comunidade fiel, fraterna e acolhedora.

No evangelho, vemos que Maria de Betânia ungiu com perfume de nardo puro os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos (Jo 12, 3). Não era preciso somente lavar os pés do Mestre, mas ungi-los com perfume valioso, isto é, com fé e amor. Essa atitude revela-nos que quando existe amor sincero, desvencilhado de conveniências, abrimo-nos ao outro, não nos importando com o preço porque, na doação com alegria (justamente quando procuramos o bem do outro), vencemos a mesquinhez, os ressentimentos, o ódio, as disputas e saímos do nosso casulo.

Esse gesto de Maria (colocar-se aos pés de Jesus) demonstra-nos uma atitude humilde de serviço, comparando-se com Jesus que - ao se levantar da mesa, tirar suas vestes e pegar uma toalha -, começou a lavar os pés dos seus discípulos e a enxugá-los (Jo 13, 4-5). A exemplo de Jesus, nós também devemos, não simbolicamente, assim agir (v 15). Esta é a regra da comunidade cristã ortodoxa: servir com amor verdadeiro o autor da vida.

O gesto de Maria é a resposta sincera ao infinito amor de Deus que não deve permanecer isolado, pessoal, mas deve afetar toda a Igreja de Cristo, infundindo amor, alegria e luz divina como o aroma do perfume que se espalha por toda a casa. Partilha (Eucaristia) e Serviço (lavar o pés) devem estar concatenados num mesmo objetivo, qual seja: tornar o Reino de Deus presente e visível ao mundo para que os homens creiam ao ver em nós as mesmas maravilhas anunciadas nos evangelhos.

Em nossa missão, torna-se preciso desenvolver bastante o sentimento de humildade. Não devemos ser funcionário, pagos apenas para desenvolver tarefas, mas servos que fazem o que deveríamos ter feito. Saber que Deus está acima de todas as coisas, de todo o nosso desempenho pessoal, quando nos sujeitamos ao seu senhorio, é Ele que nos capacita com seus dons (I Cor. 12, 4-11; Rm 12, 6-8) e está sempre no controle. Em nossos relacionamentos, devemos nos dedicar uns aos outros com amor fraternal, honrando aos outros mais do que a si próprio (Rm, 12, 10). “Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos” (Rm 12, 16).

No entanto, não podemos simplesmente esperar que caia do céu toda inspiração e resolução dos nossos problemas diários. Capacitar é a melhor solução. Líderes e liderados precisam se reciclar intelectual e espiritualmente. De acordo com o apóstolo Paulo, “Nunca lhes falte o zelo, sejam fervorosos no espírito, sirvam pacientes na tribulação, perseverem na oração. Compartilhem o que vocês têm com os santos em suas necessidades. Pratiquem a hospitalidade” (Rm 12, 11-13).

Não estamos prontos, somos inacabados, imperfeitos e, por isso, precisamos trabalhar com zelo, amor, determinação e, constantemente, planejar nossas ações de modo que nossos obstáculos não sejam barreiras para atingir nossos objetivos. Problemas sempre teremos em qualquer organização, o importante é buscar a unidade com maturidade e priorizar, em nossa administração, aquilo que entendemos ser mais importante. Se quisermos ser mestres, aprendamos com Jesus. O mestre difere-se do professor porque este não precisa obrigatoriamente articular sua vida pessoal e moral à sua arte de ensinar. O mestre é aquele que, antes de ensinar seus discípulos, vive na prática seus ensinamentos, tornando-se ele mesmo modelo para os seus seguidores. Nesse caso, a teoria nada mais é do que conseqüência do exercício prático daquilo que deu certo: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13, 15).

Autor: Padre Celso Kallarrari, C.Ss.M.
Comunicação proferida no SON (Sínodo Ortodoxo Nacional, jul./2010):
http://www.igrejasirianortodoxa.com.br/biblioteca_html.htm